dois anos sem dormir

Já passa da marca dos dois anos que não durmo direito. Eu sei. Eu, e tantas milhões de mães no mundo. Eu sei, também, quantas tantas outras (sortudas) não tiveram por tanto tempo esse ‘problema’. Entre aspas, porque dos males, o menor. Eu sei. Mas mesmo assim, acordo cedo de manhã com sua voz doce me chamando, como se não tivéssemos tido mais uma longa noite de choros e exaustão.

Talvez, enquanto você lê esse texto lhe venham alguns truques que ouviu dizer funcionar, mantras, orações, chás, remédios químicos, fitoterápicos, massagens. Talvez também se lembre que com o tempo passa e essa é com certeza a melhor das soluções. Lara, tenha paciência! E tenho. E sei, também, que não tenho. Porque na busca não só do sono perdido mas também do bem estar da minha pequena filha todo o peso e culpa para que isso aconteça cai em meus ombros de mãe.

Ah, a culpa. Culpa por não ter desmamado ela como uns sugerem, culpa por ter desmamado, como outros juram que não deveria ter feito. Culpa por dormir junto, por atender sempre que me chama ou por não atender o suficiente. Culpa por não ser capaz de manter o meu ambiente familiar (lê-se casamento) sempre harmonioso em prol da minha filha. Poderia fazer tudo diferente e, ainda assim, encontrar opinião certeira de quem passou (ou sequer tem filhos) por isso.

– Bom dia, florzinha. Mamãe está exausta.
– Mamãe, café-manhã, qué!
– Vamos lá, muito café, mesmo!

A sensação de culpa ao olhar seus olhinhos pretos sonados só aumenta. Como posso ficar brava, vencida pela exaustão, com alguém que sequer sei descrever o quanto amo? Mas, mais do que isso, como posso confortá-la e ajudá-la e viver a sua jornada que mal começou?

Observo-a feliz, explorando a casa com curiosidade enquanto faço meu café sentindo uma forte dor na minha coluna. Como pode alguém acordar já tão cheio de vida? Alguém tão pequena, mas inteira, independente e saudável. Um ser humano completo como eu, 27 anos anos mais nova. Um ser humano, que mal completou dois anos de vida. Percebo o quanto eu mesma, tantas noites tenho sonhos agitados, me angustio sem conseguir dormir, gostaria de ter minha mãe por perto. Por que então, na ânsia de dormir ininterruptamente, cobro (e sou cobrada por outros) da minha filha noites tranquilas? Logo ela, que ainda não entende a dimensão da distancia (eu também não, para ser sincera), que está lentamente percebendo sua própria individualidade, que foi colocada em um mundo gigante cheio de coisas incertas a serem exploradas.

Ah filha, o que fazer com todas essas dúvidas e vontade de lhe proporcionar o melhor para crescer feliz e saudável, eu não sei. Mas vamos começar deixando todas as fórmulas secretas de lado, vamos prestar atenção nas suas incertezas, focar em você como indivíduo não estatística e transformar as noites em dias, porque te prometo, o sol sempre nasce e o que era escuridão ontem, hoje, talvez, se torne luz.

Cartas para Lilly
11 de abril de 2018
Zurique, Suíça.

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