Sobre a Natália

Olha, vou avisar. Essa não é uma história triste, nem excepcional. Talvez, e eu vou entender, esse texto não faça sentido para você porque, quem sabe, você ainda não tenha tido a chance de ver as coisas dessa perspectiva. Eu mesma não teria visto há dois anos, mas hoje fico feliz de ver, nas sutilezas dos encontros e desencontros da vida, pessoas assim.

Estávamos no meio da semana e ela estava cansada. Abriu a porta e me recebeu em sua casa depois de mais um dia que só ela mesma sabe como foi. Um dia como tantos outros dias, que tantas outras milhares de mulheres vivem.

– Fala ‘oi’, André.
– Oi
– Oi!
– Agora é isso, adora ver esses vídeos no computador.

Voltou para cozinha onde preparava alguma coisa para comer. Desenhos do filho, anotações sobre refeições uma foto. Amor. Sou dessas pessoas que acha que a alma da casa está no cozinha e aquela era das mais sinceras possíveis: simples, prática, talvez um pouco solitária enquanto ela cozinhava jantar para um. O André já havia comido, fazer o que? É a vida da maioria das mães que sustentam uma casa.

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Vale dizer, nesse ponto, que solidão nem sempre é algo ruim. Silêncio após um dia cheio, a própria companhia, tempo para acalmar os pensamentos. O problema é que vivemos com medo de ficar sozinhos, nem que por pouco tempo, e acabamos, assim, nem tendo a chance de nos conhecermos ao final do dia.

Descalça, sem maquiagem, cabelo preso, ombros levemente curvados e, por trás do sorriso sincero no rosto, tantas preocupações, memórias e tarefas. Sentamos na sala e enquanto ela comia ouvi um pouco da sua história. E enquanto ela me contava sua história, seu filho olhava fixamente para o computador virando os olhos apenas quando ouvia algo que o interessava em nossa conversa. Veja bem: uma mãe nunca está sozinha.

Reservado, sincero e cauteloso, ele se aproximou de nós assim como seus novos gatinhos. Brincava, mostrava algo que sabia fazer orgulhoso, se enroscava no colo da mãe, sussurrava algo e logo saía, para já já voltar. Crianças são fascinantes de se observar se nos dermos o trabalho de baixarmos nossas guardas e permitirmos que eles se expressem, que contem sua versão da história.

Digo dar ao trabalho porque é uma tarefa nem sempre fácil desconectarmos dos nossos afazeres adultos e, de fato, prestarmos atenção nos nossos filhos. Mais difícil ainda é fazer isso com o filho do outro e é por isso que comecei esse texto dizendo que esse texto talvez não faça sentido para algumas pessoas. Olharmos tanto para mães quanto para crianças de uma forma mais gentil, em uma sociedade que alimenta a ideia de que crianças são irritantes e ser mãe atrapalha trabalho ou vida social, não só as machuca os pequenos mas também fere mães, mulheres.

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Claro como em poucas pessoas que já conheci, é possível ver nela todas as antíteses da maternidade. Forte para superar todos os percalços da sua trajetória, suave ao acariciar os cabelos do filho ao final do dia, minuciosa ao observar as características do André, adaptável conforme as necessidades, rigorosa com o que acredita ser o melhor para sua família, calma em um futuro que foge do controle de todos nós.

Sem filtros, a Natalia é daquelas pessoas que você quer ouvir mais, pois na sinceridade da sua fala, sem medo de assumir erros e ter esperança, ela mostra que é possível ser feliz entre tantas batalhas diárias que acabamos nos afogando. Somos muito mais fortes, versáteis do que podemos imaginar, mães.

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